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domingo, 31 de março de 2013

O sentimento de vergonha como regulador moral



Prof. Dr. Ulisses F. Araújo
Departamento de Psicologia Educacional
Faculdade de Educação / UNICAMP
Este artigo objetiva apontar a relevância da vergonha como um
sentimento fundante para o funcionamento psíquico e para a compreensão da
moralidade humana. Percorrendo estudos que diferenciam a vergonha de
outros sentimentos morais, como a culpa, e algumas discussões na Psicologia
sobre o papel que os sentimentos exercem na regulação psíquica, com ênfase
na moralidade, procura mostrar o papel da vergonha na constituição da
personalidade humana.
Palavras-chave: vergonha; moral; regulação psíquica.
Os estudos à respeito do sentimento de vergonha vem se impondo,
principalmente aos pesquisadores da psicologia do desenvolvimento e da
personalidade, como central para a construção de teorias mais completas e
integradas sobre o desenvolvimento humano. Nosso objetivo com esse artigo é
apenas o de apontar a relevância de se aprofundar esses estudos e de
caracterizar a vergonha como um sentimento fundante para o funcionamento
psíquico e para a compreensão da moralidade humana.
A vergonha, exercendo um papel regulador nas relações interpessoais
e intrapessoais, pode ser considerada como um dos sentimentos mais
relevantes para nossa experiência com o mundo. Apesar de sua importância,
historicamente a psicologia não dedicou maiores esforços na compreensão de
sua natureza e seu papel na vida humana. Somente nos últimos anos um
número cada vez maior de psicólogos vem se dedicando ao tema.
Apresentando um dado simples, apenas para demonstrar o crescente interesse
que esse sentimento vem despertando nas publicações internacionais, ao se
buscar textos que tenham a palavra “vergonha” (shame) como referência na
base de dados bibliográfica Psychological Abstracts da American Psychological
Association, encontram-se 461 referências no período compreendido entre
1974 e 1989 (16 anos), enquanto no período entre 90 e 96 (7 anos) este
número cresce para 481 referências. Para se ter uma idéia do que representa
esse número em termos de publicações, quando o levantamento é feitobuscando referências à palavra “culpa” (um sentimento muito associado à
vergonha, como veremos adiante) surgem 2.497 publicações no período entre
74 e 89, e 1318 publicações no período compreendido entre 90 e 96.
Certamente o número de publicações sobre a vergonha ainda é bastante
restrito, considerando ser esta uma base de dados bibliográfica internacional.
Demonstra, no entanto, um crescente aumento do interesse sobre o tema nos
últimos anos.
O biólogo britânico Charles Darwin é considerado o pioneiro no estudo
científico da vergonha no comportamento humano. Em seu livro “The
expression of the emotions in man and animals (1872/65)” dedica um capítulo à
característica exclusiva da espécie humana de ruborizar (blushing), de corar as
faces, provocada pelo sentimento de vergonha. Darwin acreditava ser este
sentimento o mais peculiar e o mais humano de todas as expressões, e que
seu surgimento depende de dois elementos: a reflexão sobre si mesmo de
alguma característica de aparência pessoal; e o pensamento sobre o que os
outros pensam de nós.
Os estudos de Darwin, assim como de outros autores que
aprofundaram as discussões sobre o tema (Lewis,1992; e Ablamowicz,1992),
mostram que a vergonha pode se refletir sobre o corpo do sujeito, dependendo
da situação em que surge, se na quebra de uma relação interpessoal ou se
numa exposição pública. Por exemplo, dentre as conseqüências descritas por
sujeitos que vivenciaram o sentimento de vergonha, destaca-se o corar das
faces (blushing), a dor, e a vontade de desaparecer, de tornar-se invisível. 
A psicologia não deu muita importância a este trabalho de Darwin.
Entendemos que os movimentos teóricos vinculados à psicanálise e à
psicologia cognitiva, pela força que tiveram neste século no campo da
psicologia, têm uma certa responsabilidade pela pouca importância dada ao
estudo psicológico da vergonha. A psicanálise, porque seu criador, Freud,
relegou a vergonha a um segundo plano, ou melhor, quando abordava a
ocorrência desse sentimento era para referir-se a questões de sexualidade
e/ou de exposição corporal pública, e não a considerava um sentimento
fundante para as ações morais (na teoria psicanalítica esse papel é
desempenhado pela “culpa”); já a psicologia cognitiva, que vem dominando as
atenções das ciências psicológicas nas últimas décadas, prioriza os aspectosracionais da ação humana e acaba por subordinar à razão o papel dos
sentimentos e das emoções, que geralmente são vistos como componentes
meramente biológicos da ação.
Na psicologia, quando não desconsiderada, a vergonha geralmente é
vista como um sentimento atrelado à culpa, mas inúmeros trabalhos recentes
vêm demonstrando que, ainda que muitas vezes possam se manifestar juntos,
são sentimentos de natureza distinta e não podem ser confundidos. Hultberg
(1988), por exemplo, afirma que esses sentimentos não podem ser vistos como
opostos, uma vez que são constantemente experienciados juntos, mas “a culpa
pode ser vista como uma reação a uma ação, enquanto a vergonha como
reação a um modelo existencial (p.116)”.
Para Lewis (1993,p.569), a culpa é um estado emocional que ocorre
quando o indivíduo avalia negativamente seu comportamento, mas pode se ver
livre deste sentimento se realizar uma ação que repare a ação negativa. Já a
vergonha não é produzida por nenhum evento específico, mas pela
interpretação que o indivíduo faz de uma situação, e por isso, uma vez que o
sujeito sente vergonha, não é possível reverter o sentimento. 
Não tivemos, com as considerações acima, a intenção de aprofundar a
discussão sobre as diferenças entre os sentimentos de vergonha e de culpa, e
muito menos de valorar se um é mais importante do que outro. A intenção foi a
de pontuar a distinção, e justificar a importância de se realizar maiores
investigações sobre o papel da vergonha na vida humana. 
• A caracterização do sentimento de vergonha:
Lewis (1992), em um dos trabalhos recentes mais significativos sobre o
tema (Shame: the exposed self) identifica a vergonha como uma emoção
secundária, juntamente com a inveja, o ciúme, a empatia, o embaraço, o
orgulho e a culpa, uma vez que esses sentimentos envolvem uma consciência
de si. Por outro lado, sentimentos como alegria, tristeza, raiva, surpresa, medo
e desgosto são identificados como emoções primárias, por não solicitarem
introspecção ou auto-referência. Para ele, a vergonha é um sentimento básicopara a constituição do self. Ela envolve uma auto-reflexão baseada em valores
pessoais e no de outras pessoas, e o fracasso em atingi-los levará o sujeito a
um estado que poderá fazê-lo experienciar ou não o sentimento, dependendo
da objetivação de sua reflexão.
Esse autor classifica a vergonha dentro de uma categoria que chama
de “self-conscious emotions”, porque seu aparecimento envolve a elaboração
de processos cognitivos complexos, a noção de self e a avaliação global que o
sujeito faz de si. Para sentir vergonha, a pessoa deve comparar se sua ação
contraria ou não algum referencial próprio ou de outras pessoas que lhe sejam
significativas, e este fato requer uma tomada de consciência objetiva e uma
avaliação complexa de sua ação.
Esse caráter cognitivo da vergonha vinculada ao self faz com que ela
possa surgir tanto a partir da interpretação pessoal negativa que o indivíduo faz
de uma situação em que está envolvido (relacionada à avaliação que faz de si
e de seus valores, regras e objetivos pessoais); quanto pode advir de situações
positivas em que seu Eu é exposto publicamente, como, por exemplo, no caso
de receber aplausos de uma platéia. 
Por que isso? De acordo com Harkot-de-La-Taille (1996) a razão seria
que a vergonha é resultante de um fazer do sujeito envergonhado relativo à
projeção de uma imagem de si. Em sua tese de doutorado “Ensaio semiótico
sobre a vergonha” ela afirma que as premissas, ou a base para a vergonha
são:
“Um sujeito tem um simulacro existencial, isto é, faz
projeções de si num imaginário de confiança e relaxamento; dentro
de seu simulacro existencial, ele constrói para si uma imagem que
considera representá-lo, uma imagem com a qual se identifica e se
confunde. Desliza, portanto, do parecer para o ser, imagem e sujeito
constituindo um mesmo e único valor... de posse de uma imagem de
si, uma circunstância inesperada vem arrancar o sujeito de seu
estado de confiança relaxada: percebe que o modo como se vê
mostra-se em desajuste com o modo como se vê visto. Como
imagem e sujeito se confundem, o sujeito reconhece não ser o que
pensava ser e teme o juízo dos outros, uma vez que sua nova e
indesejada representação é a imagem que os outros podem vir a ter
de si. Está formada a base para a vergonha”( p.4).A definição acima utilizada por Harkot-de-La-Taille leva a autora a
compreender que a vergonha se configura no encontro de dois sentimentos: a
inferioridade e a exposição.
A inferioridade, “que traduz a relação do sujeito com a imagem que se
acreditava capaz de projetar”, se manifesta de várias maneiras: pelo
rebaixamento de si, pela humilhação, pela desonra, causada por opiniões
negativas que os outros têm de sua imagem projetada; e a Indignidade, sentida
a partir de uma auto-sanção negativa imposta pelo sujeito a si mesmo. 
A exposição é sentida quando o sujeito é visto por alguém que ele
legitima, e possui dois correlatos: a consciência da visibilidade por alguém
legitimado e a vulnerabilidade, advinda da ação de submeter a imagem
projetada ao juízo de outrem. 
Dessa maneira, para Harkot-de-La-Taille, a vergonha instaura-se no
encontro da inferioridade sentida quando a imagem projetada pelo sujeito se
encontra aquém da “boa imagem” que tem para si, com a visibilidade de expor
essa imagem a um sujeito legitimado.
Em resumo, podemos entender que a vergonha poderá ser vinculada
ao rebaixamento do self, por exemplo, em situações em que o sujeito se sente
humilhado pelo outro que legitima; e também vinculada à exposição pública,
por exemplo, quando existem espectadores, reais ou virtuais, na cena em que
foi exposto. 
Essas primeiras reflexões mostram que a vergonha pode ser
compreendida principalmente como um sentimento intrapessoal e interpessoal,
orientado externamente, em função da consciência do olhar do outro sobre
nós. De acordo com De La Taille (1996a, p.11), “o sentimento de vergonha tem
origem no fato de eu me fazer objeto do olhar, da escuta, do pensamento dos
outros”. Mas isso não exclui o aspecto interno deste sentimento, representado,
por exemplo, pelo fato de o sujeito poder sentir vergonha sozinho, resultado de
reflexões sobre ações pessoais que contrariaram seus valores e a imagem que
tem de si.
Este olhar do outro, que pode ser real ou imaginário, de um indivíduo
ou de um coletivo, guia muitas de nossas ações cotidianas, dependendo da
valoração que atribuímos a esse outro. Essa valoração está vinculada ao
sentimento de identificação que construímos com as outras pessoas e/ou como grupo social a que pertencemos, e aos seus ideais de conduta. Assim, para
esse sentimento aparecer dessa forma, torna-se necessário uma relação
interpessoal significativa, ainda que imaginária, quando a pessoa poderá sentila mesmo sem a presença do público, por estar internalizada. A vergonha
estaria, pois, vinculada a controles externos e internos do próprio sujeito.
Tudo isso evidencia a natureza reguladora do sentimento de vergonha,
não só das relações interpessoais, mas também das relações intrapessoais, do
sujeito consigo mesmo, de ser objeto para si e para os outros.
Mas qual a gênese do sentimento de vergonha? Esse sentimento
parece surgir e estar relacionado à origem do processo de socialização vivido
pela criança em suas relações com os adultos, desde o “toillete training”, como
afirma Erickson (1963), quando a criança tem de aceitar os comportamentos
sociais solicitados, e tem de desenvolver um autocontrole para evitar a
fraqueza de não atingir as expectativas dos pais. Essa gênese, portanto,
parece estar relacionada à tomada de consciência de si por parte da criança, o
que só acontecerá na socialização, no momento em que tomar consciência de
que é objeto para os outros.
Por outro lado, antes da socialização e da tomada de consciência de si,
que aconteceria a partir de aproximadamente 18 meses de idade (Lewis,1992;
De La Taille,1998), pode-se também buscar a origem deste sentimento na
construção dos esquemas motores de ação, característicos do período
sensório-motor descrito por Piaget. A experiência prazerosa de exercitar os
novos esquemas construídos, e a valoração atribuída pelos pais aos novos
conhecimentos, parecem ser a origem cognitiva da socialização e da
constituição do self que, juntamente com a construção da função semiótica,
permitirão à criança se integrar num mundo representacional de interações
sociais muito mais complexas, condição esta essencial para o surgimento da
vergonha. 
Essa vergonha, num primeiro momento, caracteriza-se pela pura
exposição ao olhar alheio, mas à medida que os sistemas de valores vão
sendo construídos pelo sujeito, e vão sendo cognitivamente reorganizados de
forma paulatina, a vergonha vinculada a padrões, regras e objetivos (conforme
define Lewis,1992) vai se tornando mais comum. De La Taille identifica emsuas investigações (1998) que o sentimento de vergonha poderá então se
manifestar quando as ações se referirem:
“a uma ’meta’ (não obter algum sucesso, ter fracasso); a um
‘padrão’ (por exemplo,estético); a uma ‘norma’ (como a transgressão
de uma norma moral); e poderá também ser associado a uma
‘humilhação’ (portanto à alguma forma de rebaixamento da vítima); e
também por ‘contágio’ (sentir vergonha por ações de um amigo). 
Com essa categorização, entramos em uma área que mostra poder
estar o sentimento de vergonha relacionado a ações que envolvam a exposição
pura ao olhar dos outros, a padrões, e “contágio”, não tendo nesses casos
conotação moral direta. Contudo, a vergonha também pode se relacionar à
moralidade, por exemplo quando se vincula a metas, normas e à humilhação. A
vergonha moral será o próximo tópico a ser abordado.
• O sentimento de vergonha e a moralidade:
Iniciamos este tópico trazendo de novo, brevemente, a discussão sobre
o sentimento de culpa. A força atribuída ao sentimento de culpa nas culturas
ocidentais deve-se, em grande parte, à estrutura religiosa judaico-cristã que
predomina nessas sociedades, e ao fato de que esse sentimento fundamenta
as concepções de moralidade dessas religiões. Nas culturas ocidentais,
portanto, quando há referência sobre sentimentos relacionados a ações morais,
normalmente são feitas associações com o sentimento de culpa. E muitas
correntes psicológicas parecem ter refletido esse pressuposto em suas
concepções. 
Por exemplo, Freud (1930/74), ao tratar deste tema, colocou o
sentimento de culpa como o mais importante para a constituição da moralidade
no ser humano, alegando ser esse o sentimento predominante para a
constituição e o funcionamento da parte do aparelho psíquico responsável por
nossas ações morais: o superego. Resultante da internalização da
personalidade dos pais no sujeito, o superego age sempre que as ações e/ou
intenções do ego contrariam seus ditames, por meio da censura, repressão,
autopunição e de sentimentos negativos como a culpa.Somente nas últimas décadas aparecem trabalhos mais consistentes
procurando analisar, de maneira crítica, as relações entre a moralidade e os
sentimentos, salientando a importância que outros sentimentos (como a
vergonha, a compaixão, e a honra) têm para as ações morais. 
No caso da vergonha, de acordo com Lewis (1992), ela possui também
uma função moral porque coisas que nos envergonham não devem ser feitas e
“a intensidade de experiências aversivas servem para garantir que os
pensamentos, ações ou sentimentos que nos levam a sentir vergonha, não
ocorram novamente (p.140)”.
Thrane (1979) mostra que a importância dada à culpa no ocidente
origina-se da predominância de sua lógica na tradição judaico-cristã. Ele
concorda com a importância do sentimento de culpa para a constituição da
moral, mas defende, baseando-se em Kant, que esse sentimento acaba
favorecendo a moral de heteronomia, uma vez que aquele que deixa de agir
com medo da punição de sua consciência parece não amar a virtude. Pelo
contrário, para esse autor, o sentimento que permite a construção da
autonomia é o de vergonha, sentido por aquele que teme perder suas virtudes.
Quando da afirmação de Piaget de que “o elemento quase material de
medo que intervém no respeito unilateral desaparece progressivamente para
dar lugar ao medo todo moral de decair perante os olhos da pessoa respeitada
(1932/94,p.309)”, esse autor também parece defender o preceito de que a
moral decorrente de um desenvolvimento psicogenético mais equilibrado tem
como base a vergonha de decair perante os olhos da pessoa respeitada (ver
De La Taille,1996a,p.16). Com isso, pode-se inferir a possível relação entre os
sentimentos de vergonha e respeito mútuo para o desenvolvimento
psicogenético da moralidade. 
Concluindo, de acordo com De La Taille (1996a), a pessoa que “não
tem vergonha” pode ser relacionada à pessoa imoral, porque:
“uma pessoa ‘sem vergonha’ é justamente alguém que, por um lado,
ignora e despreza o juízo dos outros (não reconhece o controle
externo) e, por outro, não considera condenável, aviltante, cometer
certos atos condenados pela moral. A imagem que tem de si não
parece sofrer com a realização de atos imorais (p.16)”.Diante do que até aqui discutimos, podemos assumir que existe a
possibilidade de o sentimento de vergonha ter um caráter moral, que não se
subordina à culpa e que, por isso mesmo, merece ser estudado de maneira
isolada. Duas perguntas surgem agora: uma é sobre a origem do sentimento
de vergonha como um “sentimento moral”, e a outra se a vergonha pode ser
compreendida funcionando como reguladora das relações intra e interpessoais.
Respondendo à primeira pergunta, entendemos que é nas interações
da criança com o mundo, mais especificamente com a família, que seus
valores e regras vão sendo construídos e internalizados. A internalização dos
valores parentais é obtida a partir da transmissão social e da reflexão do
sujeito, mas também pela crítica à sua violação, por meio de sanções como a
humilhação e a ameaça de retirada de afeto. A família, por exemplo, além de
estabelecer as regras para o comportamento do sujeito, vincula uma valoração
para as mesmas e, pelos laços afetivos e/ou pela identificação estabelecida
entre as pessoas envolvidas, a violação dessas regras ou as ações contrárias
aos valores podem elicitar o aparecimento do sentimento de vergonha que, por
estar vinculado à infração de regras e/ou valores, caracteriza-se como uma
vergonha moral. À medida que essas regras se tornam conscientes para o
sujeito, e que esses valores se integram em escalas normativas, o sentimento
de vergonha começa a exercer um papel mais complexo, de regulação, na sua
estrutura psíquica.
Para responder à segunda pergunta, apontamos a afirmação de Piaget
(1954/81) de que a energética das relações entre pessoas é os sentimentos
interpessoais e que sua vinculação com as escalas de valores do sujeito levará
à construção de “sentimentos morais”. Podemos, então, inferir que o
sentimento de vergonha pode ser compreendido como um “sentimento moral”
quando estiver relacionado à regulação intra e interpessoal estabelecida sob
conteúdos de natureza moral. 
Prosseguindo esse raciocínio, podemos entender ainda que a
vergonha está relacionada aos fracassos, às imperfeições, às inadequações e
às fraquezas do sujeito diante das regras e de seus valores. Mas, para que
tenha a categoria de um “sentimento moral”, é necessário que essas regras e
valores tenham relação com conteúdos de natureza moral, aqui incluídos os
princípios morais de justiça e igualdade, mas também virtudes comohonestidade, generosidade e coragem. Assim, é necessário que esses
conteúdos de natureza moral estejam integrados na escala normativa de
valores do sujeito, integrados à sua personalidade, compondo sua identidade,
para que a ação que não esteja de acordo com esses valores e ideais levem ao
“sentimento moral” da vergonha. 
Como afirmam Blasi (1995), Damon (1995) e De La Taille (1996b,
2002), é necessário que os valores morais não sejam periféricos e sim
integrados à personalidade do sujeito, à sua identidade, para que ele tenha a
motivação de agir moralmente. Ele poderá sentir a “vergonha moral” somente
se sua ação não estiver de acordo com os valores morais integrados em sua
personalidade. No caso de sua escala de valores ter sido construída com base
em conteúdos de caráter não moral, poderá sentir mais vergonha, por exemplo,
de ser feio do que de ser visto agredindo gratuitamente uma pessoa na rua. 
Sintetizando a discussão, entendemos que as diferenças individuais
relacionadas às situações em que o indivíduo sente vergonha estão
normalmente relacionadas à imposição pela família e pela cultura de alta
valoração a determinadas regras e/ou comportamentos e/ou valores, e ao tipo
de vinculação afetiva estabelecida entre o sujeito e a fonte dessas regras e/ou
valores. 
Buscando estudar as idéias apresentadas, desenvolvemos uma
pesquisa que tentou detectar o papel regulador do sentimento de vergonha. Tal
trabalho fez parte de nossa tese de doutorado (Araújo, 1998) e foi publicado
em outra ocasião (Araújo, 1999). Foi evidenciado nos resultados da
investigação que a vergonha tanto pode ter uma natureza moral, quando for
elicitada em situações conflitivas que envolvam conteúdos morais, como pode
exercer um papel regulador entre a ação e o juízo, quando a situação solicitar
da consciência ações para recuperar o equilíbrio psíquico.
Trabalhamos, na ocasião, com a hipótese de que o sentimento de
vergonha pode ser considerado um “regulador moral” (dentre vários possíveis),
pertencendo ao sistema afetivo do sujeito psicológico, quando sua ocorrência
estiver relacionada aos fracassos, às imperfeições, às inadequações e às
fraquezas do sujeito diante das regras e de seus valores morais. Os resultados
encontrados confirmaram esta hipótese e nos permitiram concluir, também, quea intensidade desse regulador varia de acordo com o posicionamento mais
central ou periférico da regra ou valor na personalidade dos sujeitos.
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