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sábado, 5 de maio de 2012

A glória da dirupção


MARION STRECKER

A internet causou e causa muita dirupção; começou pelos correios, quando a internet introduziu o e-mail
Uma palavra que vive seu tempo de glória é dirupção. Ou "disruption", em inglês, termo que vem sendo mal traduzido por "disrupção" ou "disruptura", já que o verbo em português é "diruir" ou "derruir", que significa "desmoronar".
A palavra é dita com pompa e orgulho no Vale do Silício, na Universidade Stanford e em toda a chamada nova economia. Mas causa terror nos que estão no outro campo econômico, nas indústrias tradicionais e nos que acreditam no saber cumulativo.
Poderíamos falar em "ruptura", mas outra tradução seria "ruína" ou "derrubada", já que dirupção é uma ruptura feita à força. Traz noção de colapso, de descontinuidade, de desorganização e de deslocamento.
A internet causou e ainda causará muita dirupção. Dirupção é aquele momento em que um comportamento é totalmente modificado, e o dinheiro muda de mãos. Começou pelos correios, quando a internet introduziu o e-mail décadas atrás.
Avançou na indústria da música e de jogos, alterando profundamente sua forma física, seu sistema de produção, de marketing, de distribuição e de fruição.
Está destruindo a receita de empresas jornalísticas, tornando a atividade muito mais complexa, menos centralizada e menos profissional, dando poder de voz a todo cidadão e transferindo publicidade para sites de busca, resumos e links.
Modifica dramaticamente a indústria editorial e de entretenimento, embora Hollywood ainda resista, já que a banda larga ainda não é tão larga nem tão acessível assim na nossa sociedade global e móvel. Mas isso é questão de tempo.
Espera-se que a próxima indústria a ser diruída pela internet seja a da educação, embora o ensino a distância venha do século 20. A dirupção que destruirá escolas tradicionais mal começou.
O Massachusetts Institute of Technology começou há uns dez anos com cursos na web. A Khan Academy veio em 2004 com Salman Khan dando aula pela internet para uma prima. Tem hoje mais de 3.000 vídeos grátis e foi chamada por Bill Gates de "o futuro da educação".
No último trimestre de 2011, o cientista Sebastian Thrun seguiu o exemplo e teve a iniciativa de oferecer também on-line e grátis seu curso de inteligência artificial em Stanford, com o colega Peter Norvig, que era da Nasa antes de ser do Google.
O curso de dez semanas atraiu 160 mil inscritos de 190 países. Surgiram mais de cem voluntários para traduzi-lo em 44 idiomas.
Quem concluiu on-line ganhou certificado não válido como crédito acadêmico em Stanford, onde o dinheiro escorre pelas paredes.
O presidente de Stanford, John L. Hennessy, ficou de pensar na dirupção do ensino durante seu próximo período sabático. "Há um tsunami chegando", disse ele à revista "The New Yorker".
Thrun, que é também o cabeça dos carros autodirigíveis do Google, ficou chocado ao saber que alunos que pagam mais de US$ 40 mil de anuidade em Stanford também podem preferir aulas por vídeo.
Ele diz que não aguentou a ideia de voltar a lecionar para classes de 20 ou de 30 alunos. Por isso deixou Stanford e abriu uma startup (empresa nova). É uma escola particular grátis chamada Udacity. Qual o modelo de negócios? Vender informação dos alunos para potenciais empregadores.
Se bem que no Vale do Silício o melhor modelo de negócios é não ter nenhum. Assim, os capitalistas de risco podem atribuir qualquer valor à empresa, numa futura venda ou oferta de ações, como, aliás, acaba de acontecer com o Instagram, aplicativo lançado em 2010 por dois alunos de Stanford e adquirido por US$ 1 bilhão pelo Facebook em abril passado. Receita zero.
O Instagram lembra a Polaroid -as fotos de qualidade precária que tinham na instantaneidade da revelação seu maior valor. Há algo profundamente nostálgico no Instagram, com seus filtros imitando fotos antigas.
Quem chamou a atenção para isso foi o designer Oliver Reichenstein, no encontro "Typo" em San Francisco. "A internet é o reino da descontinuidade", disse. É o espaço onde perdemos a noção do tempo. Por isso tanta nostalgia. Temos uma continuidade a reconquistar.
MARION STRECKER é jornalista, cofundadora e correspondente do UOL em San Francisco. Escreve às quintas, a cada quatro semanas, neste espaço.
marionstrecker@gmail.com
@marionstrecker

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