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sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

A fábula faz parte da condição humana. Quer uma prova? Procure uma só pessoa no mundo que não conheça fábulas. Você não vai encontrar. Investigue por si, caro leitor, e verá que tenho razão.


EDUARDO BERRIEL
especial para a Folha de S.Paulo

  
Esse gênero literário é constituído de narrativas breves de conteúdo mágico e lendário. Está presente numa quantidade inumerável de exemplos em todas as sociedades humanas, das mais primitivas às mais complexas, das selvagens às camponesas.

A fábula é uma pequena composição em prosa ou verso em que se narra um fato alegórico, cuja verdade moral está implícita na própria ficção. Em geral, transfere para animais ou seres inanimados as qualidades e sentimentos do homem. A fábula dá representação concreta a uma idéia abstrata e, sobretudo, a um conceito moral: daí a moral da história.

Na narrativa, a ação não se apresenta como na realidade, mas como poderia ou deveria acontecer. Diferencia-se da parábola, pois esta não transcende os limites do provável, ao passo que a fábula implica sempre a atribuição de características reais ao fantástico.

Esse gênero literário possui suas próprias leis de formação. O universo é transformado de acordo com seus próprios princípios. Isso seria a criação espontânea, para Jakob Grimm. A fábula enfrenta abertamente o universo e o absorve inteiramente. Apesar dessa transformação, o universo conserva sua mobilidade, sua generalidade e sua pluralidade. Isso proporciona à fábula a característica de ser sempre nova.

Os outros gêneros literários (o romance, o drama, o poema épico) não recriam o universo, mas inserem episódios numa parte dele, mantido, porém, como uma entidade fechada e coesa. Em outras palavras: a fábula, para funcionar, não se satisfaz em contar uma história no mundo tal como existe —ela o recria. Assim, a fábula exige uma totalidade: precisa de um mundo onde as pedras falem, os rios tenham filosofia, os mortos renasçam, os animais sejam humanos, o tempo ande diferente. E que no final haja justiça, e que a vida nunca pereça.

A natureza das fábulas é universalista, e elas são, no fundo, iguais em todos os lugares. Para o escritor Italo Calvino (1923-1985), "dizer de onde é uma fábula não tem muito sentido", já que as mesmas matrizes das fábulas —"a predileção por certas espécies, a criação de certas personagens, a atmosfera que envolve a narrativa, as características do estilo, que refletem determinada cultura formal"— são encontradas no mundo todo.

Além de universais, as fábulas são muito antigas. Existem coleções famosas de fábulas orientais, em sânscrito. Alguém perguntou pelas "Mil e Uma Noites"?

No mundo ocidental, o criador do gênero foi o escravo grego Esopo (c. 620-560 a.C.), que foi imitado, entre os romanos, pelo escritor Fedro (c. 15 a.C.-50 d.C.). É famosa a fábula de Horácio sobre o rato do campo e o rato da cidade, considerada a única de origem genuinamente romana.

Na Idade Média, a fábula, na forma do "fabliau", foi cultivada nos conventos, e sabemos que os religiosos empregaram-na não só para divulgar conceitos morais mas também com sentido satírico, representando por animais os personagens ou as classes —e muitas vezes os padres, tornados motivo de zombaria.

Poetas das mais diversas nações cultivaram o gênero, e a relação é infindável. Mesmo atualmente a fábula está muito viva. Um dos romances brasileiros mais modernos, "Macunaíma", de Mário de Andrade, é composto de uma somatória de fábulas indígenas e universais. Millôr Fernandes, há décadas, produz as suas "Fábulas Fabulosas" —agora, com as recém-lançadas "100 Fábulas Fabulosas"—, alimentadas não por um universo mágico, mas pelo "nonsense" de um mundo cruel e cínico.

As raízes históricas das fábulas estão localizadas nas histórias dos povos primitivos e nos ritos tribais, e dessa origem arcaica conservaram um estrato profundo de significados. Foram frequentemente transcritas nos modos e nas linguagens das várias culturas, em particular da camponesa, que impregnou fortemente os textos com os seus valores e com a sua linguagem. O gênero retém, portanto, um conhecimento ancestral que todos temos. Mesmo aqueles que não dominam a linguagem escrita conhecem um razoável repertório, o que indica a natureza fortemente oral desse patrimônio.

Dois importantes teóricos russos da cultura popular, Mikhail Bakthin e Georg Gurevitch, divergem sobre o tema. O primeiro procurou ressaltar a diferença e mesmo o antagonismo entre a chamada cultura douta e a cultura popular, enquanto Gurevitch procurou, ao contrário, demonstrar a mistura e a troca, ainda que conflituosa, entre essas duas culturas.

De fato, o maravilhoso patrimônio fabular nasceu da cultura popular, camponesa e oral, e entrou para a literatura escrita pelo trabalho dos eruditos coletores que compilaram o rico material. Foi transmitido, na nossa civilização, seguindo os típicos procedimentos de transmissão da cultura oral, entrando na literatura escrita de dois modos: com o resgate literário das fábulas antigas e por meio da retomada da temática fabular em textos literários de vários gêneros, do romance de cavalaria à novela do Renascimento, do "fabliau" medieval ao conto fantástico.

Na verdade, essa recolha do material popular foi enorme, e a lista completa é impossível. O "Pentamerone" ou "Lo Cunto de li Cunti" —uma coletânea de contos, aos moldes do "Decamerão", de Boccaccio—, de Giambattista Basile (1575-1632), foi publicado por volta de 1635. O poeta francês Jean de La Fontaine (1621-1695) reviveu a fábula no século 17, dando-lhe algumas características inerentes à época, e imprimiu-lhe também um caráter de ironia amável, uma moralidade humana em um tom algo bonachão.

Quando os irmãos alemães Jakob (1785-1863) e Wilhelm Grimm (1786-1859) publicaram suas "Fábulas para Crianças e para Famílias", em 1814, a fábula —ou o conto de fadas— adotou verdadeiramente o sentido de forma literária particular. Foi essa coletânea que reuniu a diversidade dos textos num conceito unificado e passou a ser o modelo de todas as coletâneas posteriores.

Antes dos Grimm, o poeta alemão Christoph Martin Wieland (1733-1813) definiu a fábula como uma forma de arte que reunia em si duas tendências opostas da natureza humana: a tendência para o maravilhoso e o amor ao verdadeiro e ao natural. É importante lembrar que, para que a fábula tenha qualidade, é preciso manter a justa relação recíproca entre o maravilhoso e o verdadeiro. Por serem ambas as tendências inatas na humanidade, encontramos as fábulas em todas as partes e em todas as épocas.

O mais importante coletor de fábulas do século 20 foi o escritor Italo Calvino, autor das "Fábulas Italianas", que publicou pela primeira vez em 1956. Na sua opinião, as fábulas são verdadeiras: "São, tomadas em conjunto, em sua sempre repetida e variada casuística de vivências humanas, uma explicação geral da vida, nascida em tempos remotos e alimentada pela lenta ruminação das consciências camponesas até nossos dias".

Para Calvino, as fábulas seriam "o catálogo do destino que pode caber a um homem e a uma mulher, sobretudo pela parte de vida que justamente é o perfazer-se de um destino: a juventude, do nascimento que tantas vezes carrega consigo um auspício ou uma condenação, ao afastamento da casa, às provas para tornar-se adulto e depois maduro, para confirmar-se como ser humano".

Mas talvez ninguém tenha elevado a fábula ao grau em que Bruno Bettelheim (1903-1990) o fez, no seu já clássico "A Psicanálise dos Contos de Fadas". Judeu, Bettelheim foi para o campo de concentração durante a Segunda Guerra. Lá observou que a expectativa de sobrevivência não estava diretamente relacionada às condições elementares de saúde do corpo, mas a um outro fator.

Os indivíduos profundamente práticos, voltados para uma interpretação fria e diretamente realista da vida, sucumbiam prontamente ao horror do campo. Já outro tipo de indivíduo, aquele dotado da capacidade de fantasiar, de ver o mundo com olhos imaginativos, capaz até mesmo de crer que tudo muda, tudo vira seu contrário —capaz de fabular, portanto—, esse sobrevivia. A pessoa capaz de ver horizontes, de alimentar esperanças quando nada autorizava, revelava-se mais forte na adversidade.

Bettelheim pôs-se a contar fábulas para as crianças do campo, dando-lhes, assim, a hipótese da vida. Para ele, "os contos de fadas transmitem o seguinte recado às crianças: que uma luta contra dificuldades graves na vida é inevitável, é parte intrínseca da existência humana. Se a pessoa não se intimida, mas se defronta de modo firme com as opressões inesperadas e muitas vezes injustas, ela dominará todos os obstáculos e, ao fim, emergirá vitoriosa".

Carlos Eduardo Berriel, 51, é professor de literatura na Unicamp e autor de "Mário de Andrade Hoje" (Ensaio, 1990) e "Tietê, Tejo, Sena: A Obra de 

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